Nas últimas décadas, mais precisamente após o surgimento da pílula anticoncepcional, a mulher ganhou autonomia para se proteger contra uma gestação indesejada e programar o momento ideal da sua vida para engravidar. A pílula abriu caminho para importantes transformações sócio-culturais como o gradativo aumento da participação feminina no mercado de trabalho, a diminuição no número de filhos por casal e, principalmente, a postergação da maternidade.

Se por um lado estas mudanças comportamentais como o adiamento da maternidade significam uma grande conquista para as mulheres, por outro representam um risco para a reprodução. Com o aumento da idade feminina aumenta também a incidência de patologias ginecológicas como a endometriose e os miomas uterinos que dificultam uma gravidez. Além disso, existe também um risco das mulheres mais velhas sofrerem uma diminuição ou até mesmo uma redução drástica do seu estoque de óvulos antes de constituir a sua prole.

Há consenso na comunidade científica de que a partir dos 35 anos a mulher entra em um período crítico, marcado pelo constante e progressivo declínio da sua capacidade reprodutiva. Porém, cabe ressaltar que esta idade se refere a uma média e por isso, pode acontecer de mulheres mais jovens já apresentarem em forma assintomática, portanto oculta, diminuição da sua reserva ovariana.

Para avaliar melhor este cenário, o Centro de Reprodução Humana Nilo Frantz de Porto Alegre fez um levantamento de dados no período compreendido entre 2015 e 2016 e obteve resultados preocupantes.
Foram analisadas as dosagens de hormônio anti-Mülleriano de 505 mulheres. Este exame de sangue é considerado a mais precisa ferramenta para avaliar a reserva ovariana, ou seja, o estoque de óvulos remanescentes nos ovários de uma mulher em idade reprodutiva.

A pesquisa mostrou que 16,4% apresentavam uma moderada redução do estoque de óvulos e que outros 10,5% tinham uma acentuada diminuição. Logo, foi possível verificar que 26,9%, ou seja, uma em cada 4 mulheres têm o estoque de óvulos abaixo do esperado para a sua idade, mesmo sendo saudáveis e sem apresentar qualquer tipo de sintoma como alterações do ciclo menstrual.

Diante desta realidade talvez seja prudente solicitar àquelas mulheres que desejam um dia ter filhos este marcador da reserva ovariana de forma rotineira no consultório do ginecologista, ao menos uma vez, preferencialmente na idade dos 25 aos 30 anos como uma forma screening da reserva ovariana. Desta forma será possível fornecer a estas mulheres uma informação concreta e útil a respeito do seu status ovariano e, assim aconselhar e enquadrar de forma mais apropriada o seu futuro reprodutivo dentro do seu planejamento de vida.